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gueira as urzes dos campos maninhos e os lavores transcendentes do genio.

Com permissão do nosso Augusto Protector, e em Nome de Sua Magestade El-Rei o Senhor D. Fernando, Presidente da Academia, declaro aberta a sessão.

RELATORIO DOS TRABALHOS

LIDO NA SESSÃO PUBLICA

DA

AGADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA

EM 15 DE MAIO DE 1877

PELO SECRETARIO GERAL INTERINO

JOSÉ MARIA LATINO COELHO

SENHORES:— Não é ainda transcorrido largo espaço depois que em dezembro de 1875 n’este mesmo logar nos reunimos para satisfazer á legal obrigação de commemorar perante o publico os nossos empenhos e trabalhos em beneficio da sciencia e do progresso nacional.

Foi breve certamente o intervallo. Mas não esteve ociosa a Academia. Se não podemos hoje enumerar, como fructos da sua actividade scientifica e litteraria, tão copiosas publicações, quaes deixámos relatadas na sessão antecedente, ainda nos sobram documentos, com que attestar perante o publico não havermos olvidado a responsabilidade litteraria e a obrigação moral, que nos impõe ao mesmo passo a lettra dos estatutos e o espirito da nossa tradição.

A vida intellectual das academias parece hoje em toda a parte menos energica, menos brilhante, menos influente no pensamento e na sciencia das nações, do que nos tempos, em que sob um regimen de privilegio e restricção, n'um estado de cultura menos popular e diffundida, as corporações officiaes, consagradas ao tracto da sciencia, eram

os fócos principaes do lavor intellectual. São passados os tempos, em que os mais admiraveis descobrimentos eram geralmente registados nos fastos e nas memorias das mais illustres academias. Era a quadra, em que as Transacções da Sociedade Real de Londres, tinham quasi o monopolio de estampar nas suas paginas os escriptos firmados por estes nomes immortaes, que vivem associados ás mais nobres e audazes conquistas da humana investigação nos mais intimos recessos da natureza. Eram os tempos em que a sciencia, a historia, a eloquencia e a pbilologia, impera- .. vam com o seu indisputavel principado nas antigas academias, de que descende o Instituto de França. Era a época famosa, em que a Russia, surgindo apenas da sua barbarie medieva e entrando na sua tardia renascença, pelos esforços de um autocrata illustrado, concentrava toda a sua energia intellectual na celebrada Academia de Petersburgo, e pedia o seu logar na communhão dos povos meridionaes, para quem já desde seculos se havia levantado no horisonte o sol resplandecente da sciencia.

Era a edade afortunada, em que Frederico, fundando como soldado a grandeza militar, e iniciando como philosopho a alteza litteraria da sua quasi obscura monarchia, fiava da Academia de Berlin, e do seu recrutamento de sabios francezes e encyclopedistas, o esplendor e o progresso das sciencias n'aquella terra predestinada a disputar dentro de um seculo á nação mais illustre pelas glorias da razão e da espada, o monopolio da sciencia e o privilegio da victoria. Eram os tempos finalmente, em que Portugal, tendo-se já consociado pela reformação da sua caduca universidade ao movimento scientifico na cathedra e na escola, à nossa Academia confiava, pela louvavel diligencia de um espirito illuminado e superior aos preconceitos da sua terra e do seu berço, de um principe, educado na escola philosophica do xviii seculo, o encargo difficil, mas honroso de representar e dirigir a elaboração intellectual nos dominios

da sciencia pura e applicada, e nas quasi inexploradas regiões da authentica historia nacional, e da boa erudição e philologia.

Mudaram porém os tempos e os costumes. Alargou-se o campo aos que trabalham na sciencia, em todas as suas multiformes theorias e nas suas maravilhosas applicações. Já não estão resumidas e concentradas nas sociedades litterarias e scientificas todas as energias intellectuaes. Na organisação politica e social, que no continente da Europa antecedeu á revolução, a acção collectiva das sociedades vinculava-se em cioso monopolio nas mãos dos seus gover'nos. Nenhum progresso notavel se podia effeituar, sem que tivesse por origem o poder e a força da auctoridade. Proclamados os fóros populares e deixada mais larga participação á influencia e alvedrio particular, a civilisação de cada povo teve dois cooperadores, egualmente fecundos e efficazes, o trabalho espontaneo do paiz e a suprema direcção dos que em seu nome e beneficio exercém o poder. Assim passou tambem com a missão das academias, depois da profunda transformação das sociedades civilisadas e christans. Eram a principio as quasi unicas forças productivas do trabalho intellectual. Accresceram novos elementos de estudo e investigação, diffundiu-se com os progressos do ensino official, a predilecção pela sciencia e litteratura. Emancipou-se o pensamento, que d’antes não podia levantar a sua voz, sem a avara permissão da censura temporal ou ecclesiastica. Entrou a tomar parte no governo das nações e na obra da sua melhoria politica e social a imprensa, esta maravilhosa instituição, que se é ás vezes o facho das cruentas dissenções, a arena das paixões sem freio e sem regimen, a Columna Moenia, onde se punem com egual severidade os justos e os culpados, é tambem a esplendida luz, a cujos intensissimos reflexos caminha a humanidade na sua progressiva e fecunda evolução. Já não é possivel tirar a linha, que separa os sabios officiaes dos que longe das

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